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COLARES

por Nuno Saraiva, em 06.07.06

Este conjunto de textos reunidos pela Alagamares é indispensável para quem gosta de Colares.

Copio aqui um muito interessante sobre o mestre Eça de Queiroz

 

EÇA DE QUEIRÓS E O VINHO DE COLARES

"SINTRA NA OBRA DE EÇA DE QUEIRÓS", por João Rodil (2000)
Cap. IV -Eça e o vinho de Colares

"Amante e boémio, com os poderes desinibidores capazes de fazerem espoletar o amor, ou, ao invés, bálsamo atenuante para desilusões amorosas, o vinho ocupa na vida e na literatura um lugar proeminente. Eça de Queirós, homem muito dado a petisqueiras - que concorreram, em boa parte, para a sua morte -, escritor que deu particular atenção aos amores tempestuosos, apresenta um vasto cardápio de vinhos ao longo da sua obra. De todos eles, um se destaca: o vinho de Colares.

De longínqua tradição, encimando a famosa lista da viticultura nacional, o vinho de Colares contém particularidades únicas, que o tornaram ao longo dos anos num dos mais apreciados vinhos do mundo. A sua famosa casta Ramisco, cuja vinha é abacelada em terrenos arenosos do litoral e sujeita ao micro-clima existente na região sintrense, produz um vinho de bouquet magnífico, cheio de delicadeza, sabor e perfume agradáveis, e com pequena percentagem de álcool.

A dúvida ainda subsiste quanto à data da plantação dos primeiros bacelos na região de Colares. Mas a expansão da vinha na Península remonta à mais alta antiguidade. Políbio fala dos vinhos da Lusitânia como sendo dos melhores da Europa, um século antes da era cristã. No foral afonsino de Sintra (1154) consta que se cultivava, já naquele tempo, a vinha na região. D. Afonso IV pretendeu animar a cultura da vinha, porquanto na doação que em 1255 fez do Reguengo de Colares a Pedro Miguel e sua mulher, Maria Estevão, foi com obrigação de plantar vinhas, o que levou o Visconde de Juromenha, na Cintra Pinturesca, a levantar a hipótese de ter este rei ali introduzido cepas originárias de França, pela semelhança deste vinho com alguns daquele país.

D. Dinis, que tão grande impulso deu à agricultura, entre as doações que fez a seu filho, o infante Pedro Afonso, em 1301, contam-se uma adega, diversas vinhas, terras, azenhas e outros domínios situados em Sintra e seus arredores. No Livro das Colheitas de D. Afonso IV, discriminam-se as colheitas efectuadas na Vila e seus arrabaldes, verificando-se que a produção do vinho era, à época, de três modios em Sintra e três modios nos arrabaldes. Segundo alguns cronistas, o desenvolvimento dos vinhedos permitiu que no reinado de D. Femando I (1367-1383) se fizesse o primeiro movimento de exportação de vinho.

A região de Colares possuía, então, uma viticultura florescente, que, a par de outras valiosas plantações, davam à Vila uma importância significativa. Por tal, D. João I, em 20 de Agosto de 1385, logo após a Batalha de Aljubarrota, entrega, por doação, a vila de Colares ao Condestável D. Nuno Álvares Pereira.

D. Manuel I, que atribuiu foral a Colares em 10 de Novembro de 1516, aumentou os privilégios que gozavam os agricultores da região, o que deu novo impulso à vinha. Nos documentos comprovativos do aviamento e carregação das naus que se destinavam à Índia, nota-se que o vinho de Colares era um dos preferidos. Por esta altura, na Crónica do Imperador Clarimundo (1520), João de Barros faz larga referência aos frutos do vale do Rio das Maçãs e, nomeadamente, ao vinho de Colares.

Estes elementos que vimos anotando, apenas corroboram a tradicional afirmação de que desde o séc. XIII, tem carta de nobreza o afamado Ramisco de Colares. Em 1865, os vinhais do país foram, em grande parte, devastadas pela filoxera. Mas os vinhais de Colares ficaram incólumes, para o que muito contribuíram as condições dos terrenos arenosos, em que o terrível insecto não encontrou modo de penetrar.

Por isso, a categoria do vinho de Colares impôs-se, fazendo dele o primeiro vinho de mesa nacional. É, portanto, com naturalidade, que vamos encontrá-lo mencionado com frequência na nossa literatura, nomeadamente na obra queirosiana.

Em Alves e C. a, O vinho de Colares ocupa um lugar de destaque nos produtos que Godofredo Alves negoceia, através da sua firma de exportação. Ao que parece, as colónias africanas eram grandes consumidores: «- O Sr. Machado deixou alguma recomendação a respeito do vinho de Colares para Cabo Verde?». Uma das facetas da bebida é, sem dúvida, o seu poder calmante, sobretudo se se trata de desgosto amoroso. Assim vamos encontrar Godofredo, depois de ter descoberto o adultério que sua mulher, Ludovina, cometera com o seu sócio, o Machado. É num jantar em sua casa, com alguns amigos: «Houve um curto silêncio. Medeiros gabou o Colares. E Carvalho, a respeito do Colares que ele costumava beber em Cabo Verde, lembrou um caso de duelo, lá, em que ele fora testemunha».

Um dos maiores elogios que Eça faz ao Colares, aparece em O Mandarim: «Ah!, que dia! Jantei num gabinete do Hotel Central, solitário e egoísta, com a mesa alastrada de Bordéus, Borgonha, Champagne, Reno, licores de todas as comunidades religiosas - como para matar uma sede de trinta anos! Mas só me fartei de Colares». É notória a preferência de Eça, na personagem Teodoro, pelo vinho de Colares, mesmo quando rodeado de outros vinhos tão famosos.

Em O Primo Basílio, para além das múltiplas referências à vila de Colares, também o vinho merece algum destaque. Ao retractar a mocidade da personagem central da obra, escreve o romancista: «Basílio tinha sido apenas um 'pândego' e, como tal, passara metodicamente por todos os episódios clássicos da estroinice lisboeta - partidas de monte até de madrugada com ricaços do Alentejo; uma tipóia despedaçada num sábado de touros; ceias repartidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas pegas aplaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau e Colares nas tabernas fadistas; muita guitarra; socos bem jogados à face atónita de um polícia; e uma profusão de gemas de ovos nas glórias do Entrudo». A partir de meados do século XIX, devido à enorme popularidade que atingiu o vinho de Colares, a produção não seria suficiente para abastecer todo o mercado. Em consequência, alguns comerciantes adulteravam o vinho genuíno, misturando-o com outros, e até acrescentando-lhe água e álcool. Eça de Queirós alude, em O Primo Basílio, a esse vinho adulterado: «Ele teve um sorriso infeliz. - Cear! Se se podia chamar cear ir ao Grémio rilhar um bife córneo e tragar um Colares peçonhento!» .

Nas recomendações que Rabecaz faz a Artur Corvelo, personagem central de A Capital, antes deste partir para Lisboa, o vinho de Colares também é incluído: «- Por exemplo, o amigo está num café com a rapaziada: arranja-se uma troça ao Dafundo, com boas pequenas... É preciso fazer saltar, pelo menos, seus três ou quatro mil-réis, para tipóia, pinguinha de Colares, etc...».

N'A Tragédia da Rua das Flores o vinho de Colares surge, pela primeira vez, na voz de Dâmaso que, ceando no 'Mata' com Vitor, pede ao taberneira o precioso líquido para acompanhar a comida: «- E Colares branco, ó Manuel!».

Desesperado com os ciúmes que lhe causava o caso entre Dâmaso e Genoveva, Vítor afoga as mágoas: «(...) bebeu uma garrafa de Colares, dois copos de conhaque: julgando-se interessante na sua dor e pensando em Alfred de Musset que, ele também se embebedava com álcool para esquecer as desilusões do amor humano».
Numa subtil alusão à nobreza do vinho de Colares, o pintor Camilo Serrão «(...) todo preocupado dos artistas da renascença e das suas maneiras régias, ofereceu a Genoveva maçãs e Colares; como Ticiano poderia ter oferecido as granadas de Tivoli com de Lacrima-Christi.».

Em Os Maias, as referências ao vinho de Colares multiplicam-se. De salientar o célebre jantar preparado pelo poeta Tomás de Alencar em Sintra, no Lawrence, bem regado com «grandes copos de Colares emborcados de um trago». E porque o vinho aqueceu os ânimos, perante as pálidas figuras de dois ingleses que o olhavam fixamente, o poeta exaltou-se: «- E, se aqueles ingleses continuam a embasbacar para mim, vai-se-lhes um copo na cara, e é aqui um vendaval, que há-de a Grã-Bretanha ficar sabendo o que é um poeta português!...».

De referir ainda a carta que Dâmaso Salcede escreve ao seu tio Guimarães, o «amigo de Gambetta», tentando cativá-lo: «O meu querido tio sabe como eu gosto de si, que até estava o ano passado com tenção, se soubesse a sua morada em Paris, de lhe mandar meia pipa de vinho de Colares».

Também em Uma Campanha Alegre, reunião dos textos de As Farpas, Eça faz larga menção ao vinho de Colares. Satirizando uma sessão da Câmara dos Deputados, oferece-nos uma recriação tipicamente queirosiana:

«O Sr. José Dias (batendo com a bengala sobre a mesa, a um contínuo): - Dois cafés! Um cabaz! Vozes (atravessando o corpo legislativo). - Salta meia de Colares!».

No descontentamento com a situação política que o país atravessava, Eça, cidadão atento e artista de pena afiada, remata assim o final da sessão:

«A Câmara sai, correndo, gritando, rebolando pelas escadas abaixo. Os contínuos levantam as garrafas de Colares».

Jaime Batalha Reis, recordando o seu convívio com Eça de Queirós, não deixa de registar a apetência deste por ceias acompanhadas a vinho de Colares. A propósito de um desses momentos em que cearam juntamente com João de Sá Nogueira, conta-nos Batalha Reis: «E íamos, com efeito, encontrar este nosso amigo, oficial do Ultramar, que à ceia nos contava - durante o bacalhau com batatas, o meio bife e o Colares - as pitorescas aventuras das sus viagens pelos sertões de Angola»

 

publicado às 13:49



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