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Mucifal é um lugar da freguesia de Colares pertencente ao concelho de Sintra.
Protegido a Sul pela Serra de Sintra, encimada pelo seu emblemático palácio e onde ainda se fazem sentir aqui e além os perfumes, as cores e os sons descritos por Eça e Ramalho (talvez apenas a misteriosa e enigmática casa onde foi encontrado o cadáver do inglês Rytmel já lá não esteja), bafejado a Oeste pelas Praias Grande e das Maçãs e a Leste por Nafarros, aí está o Mucifal, um recanto ubérrimo e idílico, repleto de simbolismo e de serenidade, onde se reflectem os tons do verde colorido da Serra, onde se projectam os respingos de espuma azulada do oceano, onde o cantar dos pássaros ainda atulha as madrugadas de magia, onde o Sol, ao pôr-se, se tinge de um azul amarelado, um local onde os ventos chegam carregadinhos de perfume duma abrupta e descarada maresia.
Havia de ser este Mucifal, graças à gigantesca disponibilidade, ao titânico carinho, à desmedida hospitalidade e à excelente capacidade organizativa do Agostinho Simas e da Aldina, a congregar muitos dos que outrora viveram e se formaram na “Casa Santa e Mimosa de Deus” da velhinha leal e sempre constante Angra, hoje património mundial da humanidade.
Para lá convergiram quatro dos antigos mestres dos anos sessenta: Cunha de Oliveira (Hebraico, Grego Koiné e Sagrada Escritura) e que colocou em “estado de choque” a Angra de então, com as homilias na igreja da Conceição, transmitidas em directo pelo velhinho Rádio Clube de Angra, o Artur Goulart (Desenho, História da Arte e Liturgia) hoje a realizar uma obra admirável de recolha e defesa do património artístico, cultural e religioso da Arquidiocese de Évora, o Horácio Noronha (História Universal e Director Espiritual) hoje párocoem Pinhal Novoe Director Espiritual do Seminário de Setúbal e o Weber Machado (Matemática e Físico-Quiímica) Director da Caritas Açoriana e recentemente agraciado com a ordem de comendador pela Presidência da República. Para lá afluíram também muitos outros que frequentaram aquele “astro a sorrir de bonança” e que assim se puderam encontrar e rever depois de anos e anos a percorrer caminhos e rumos diferentes e dispersos e, em muitos casos, bem alterados e diferenciados pelo destino.
Alguns até pela primeira vez se reencontraram, dado que há mais de 40 anos haviam rumado a vivências diferentes e a locais mais dispersos e longínquos. Ali se concentraram e reencontraram a contar histórias e aventuras de vida, a relembrar os outros que ali não estavam mas trazidos pela memória e amizade dos presentes, a recordar acontecimentos, estroinices e partidas e, sobretudo a cantar, porque era isso talvez o que de mais belo faziam, recordando horas e horas de amizade recíproca, de vivência em comum, de ternura partilhada e de esperanças conjugadas.
De 1958 compareceu o Manuel Pereira, de 1960, o João Esaú, de 1962 o Agostinho Quental e o Antonino Ávila, de 1964 o António Medeiros o António Rego e o Januário, de 1966 o Olegário Paz, de1967 o Andrade Moniz e de 1970 o Carlos Fagundes. Estiveram ainda presentes o Manuel Nóia, o Agostinho Simas, o Manuel Maciel, o Mário Carmo, o Onésimo Teotónio e o Noé Carvalho, os quais, embora não chegando a completar o curso teológico, nos anos que permaneceram no Seminário, da mesma forma que os outros, se entranharam nos mesmos ideais, se empenharam na mesma formação e se embeberam em vivências e partilhas comuns. A maioria dos presentes fez-se acompanhar pelas respectivas esposas e, nalguns casos, até por outros familiares.
Estes encontros e reencontros iniciaram-se precisamente há vinte anos. Daí que este tenha tido um significado muito especial até porque foi ocasião de recordar alguns dos seus propulsionadores, participantes efectivos e grandes dinamizadores, que infelizmente já faleceram: o Raimundo Correia, o Manuel António, o Artur Pereira, o Artur Martins e o Afonso Quental.
NB – Este texto foi publicado no Pico da Vigia, em 22/06/09, após eu ter participado pela primeira vez, nestes encontros.
Post no blog Pico da Vigia 2.

Vídeo de Pedro Macieira (Rio das Maçãs) (com música de José Fernandes Badajoz) e fotografia de José Maria Oliveira (Arrumário).