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Colares, o vinho, é um mundo perdido

por Nuno Saraiva, em 20.06.07

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Colares é um daqueles casos típicos de erro de casting! Colares tem tudo a seu desfavor e é uma das raras regiões vinhateiras onde o absurdo e o contra-senso são a regra. Nada faz sentido e a lógica encontra-se subvertida em todos os detalhes.

Por vezes parece uma operação de marketing onde o paradoxo e a heresia são levados ao extremo. E, no entanto, Colares mantém um encanto difícil de explicar. A sedução advém das múltiplas contrariedades, da exiguidade da área, da rusticidade das práticas e dos vinhos. Não vale a pena perder tempo com floreados, os vinhos de Colares são estranhos, difíceis, raros, diferentes de todos os outros; são vinhos que requerem habituação. E, infelizmente, em quase todos os casos, são de qualidade mediana…

Comecemos pelo clima e pela filosofia. A influência é marcadamente atlântica, com temperaturas médias baixas, níveis de insolação medianos, índices de humidade elevados, neblinas frequentes e ventos constantes. O mundo do vinho verde às portas de Lisboa! A humidade excessiva provoca contínuos problemas sanitários, com riscos permanentes de podridão. Depois, num clima naturalmente recomendado para vinhos brancos, insiste-se numa casta tinta inexistente em qualquer outro ponto do País, a casta Ramisco.

Para cúmulo, é caprichosa, de baixa produtividade, com peculiaridades únicas. Como se não bastasse, os melhores solos da região, os que providenciam melhores resultados, são literalmente solos de areia da praia. Como a videira necessita de chão firme para poder estabelecer raízes, torna- se necessário escavar trincheiras até ao solo argiloso. A profundidade da areia varia entre um e dez metros, implicando um trabalho hercúleo, caro e moroso na plantação de qualquer vinha. A maioria das vinhas é velha, muito velha, centenária, com produtividades baixíssimas.

Voltemos ao vento constante de Colares, tão forte e devastador que o Ramisco tem de ser conduzido rente ao chão. Assim, as videiras transformaram-se em plantas rastejantes, assentes na areia, espraiando-se no conforto da areia, abrigadas do vento por paliçadas de canas. E de cinco em cinco metros está outra paliçada de canas para as proteger da inclemência do vento. Como as varas estão caídas no chão, cada cacho tem de ser, ligeiramente, elevado com a ajuda de uma pequena cana biselada, para que o cacho não seja escaldado pelo calor da areia.

Cada cacho, um a um, tem de ser protegido e tratado com esta técnica ancestral. Um trabalho insano, de rendibilidade impossível. A falta de sol, a eterna frescura, os nevoeiros constantes implicam maturações difíceis, valores alcoólicos muito baixos, pouca fruta e cores algo deslavadas. Exactamente o oposto das tendências modernas.

E, finalmente, como se os problemas naturais não fossem já sufocantes, Colares sofre uma pressão imobiliária avassaladora. Zona residencial, turística, de lazer, proximidade de Lisboa, os interesses imobiliários são neste momento a maior ameaça à continuidade desta região tão peculiar. Porquê manter em produção vinhas tão problemáticas, com rendimentos económicos insignificantes, se a mais-valia com a venda do terreno pode ser tão aliciante? Para quem tem vinhas na zona a pergunta não tem resposta fácil…

Colares tem tudo contra si e o futuro é incerto. A racionalidade diz-nos que nada faz sentido e que Colares é um mundo perdido. Mas a sensibilidade diz-nos que Colares é uma peleja contra todas as adversidades, que representa a individualidade, a alegria da cor que nos garante que o mundo não se escreve a preto e branco. Sugiro-lhe que experimente dois vinhos de Colares, o branco Arenae Malvasia Colares 2004 e o tinto Arenae Ramisco Colares 2001, ambos da Adega Regional de Colares. Acredite que vai provar vinhos diferentes. Mantenha um espírito aberto para um estilo que desconhece. Vai perceber que o mundo do vinho tem muitas tonalidades e cambiantes e que a diversidade é um privilégio.

Que Colares possa sobreviver!

O melhor artigo sobre o vinho de Colares que alguma vez li.

 

Crítica de Rui Falcão, no jornal OJE, dia 20/06/2007, pg. 16.

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publicado às 17:41


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