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Os Bravos do Penedo

por Nuno Saraiva, em 11.10.09

(...)

No entanto, todos os Verões, sempre passados na “casa dos cestos” do Penedo (no tempo em que o Penedo não sonhava que um dia iria ser moda…), estremecia essa minha convicção sobre o jornalismo. Ocorria geralmente entre Julho e Agosto, e a dúvida tinha associada dois sons: a sirene dos Bombeiros Voluntários de Colares e o eco dos passos do Chico correndo ladeira abaixo a meio da noite. Eu acordava com o som da sirene, 3 vezes, ouvia os passos apressados do nosso vizinho, e sabia o resto: era fogo.

Fogo na Serra de Sintra era obra para gente brava – não apenas bombeiros, como o Chico, mas todos os que se sentiam capazes de enfrentar o inimigo comum. Com ramos de árvores, à pá, com baldes de água, como fosse.

 

(...)

Pior (ou melhor): o Chico e outros Chicos que corriam ladeira abaixo e acima para enfrentar o fogo na Serra, eram os mesmos que dedicavam, em cada ano, um dia das suas vidas correndo à frente de um touro. Levavam marradas e riam. Iam parar ao hospital e riam. Ficavam meios apanhados da cabeça, e por isso riam. A “Festa do Boi” – em rigor, “Festa em Honra do Divino Espírito Santo” – tinha o dia fatal da sua “fama” quando um pesado mastodonte era “lidado” à corda pelas ruas do Penedo e acabava cozinhado num caldeirão que servia os pobres da região em modo “jardineira”. Eu não gostava de ver o sangue do boi correr pelas bermas das ruas do Penedo, nem gostava da ideia do animal ser bombo da festa – mas quem corria à frente dele, quem lhe gritava “olá” e fazia rajadas de palavrões (sempre um ponto a favor, para nós, os putos…), eram justamente os mesmos que, nas horas difíceis, lá estavam à frente do fogo. E não me custou a perceber que tudo fazia parte de um mesmo pacote.

Há anos que a festa não se faz - nem a correspondente polémica sobre a sua legalidade -, mas o que fica na memória são aquelas caras alucinadas, loucas, fortes, que eram exactamente as mesmas que encaravam o fogo de frente, ou que se lançavam na estrada nas insuportáveis XF-17 para as bebedeiras descomunais nos bailes de Verão.

Bravos ou loucos?

Ainda hoje não sei. Mas sei que quando a palavra “Bravo” me aparece à frente, é deles que me lembro: do Chico, do Sacristão, do Totobola, dos Gémeos, do V5, e de mais uns tantos cujas alcunhas agora me escapam. Os bravos lá do Penedo, quando o Penedo era pouco mais do que uma aldeia de bravos com um coreto no meio.

 

 

Pedro Rolo Duarte, Ontem, na revista i e no seu blog.

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publicado às 13:55

Colares e as tradições. A malfadada ASAE

por Nuno Saraiva, em 11.04.08
Quem não se lembra daquele jogo que se espetava um lápis num círculo de papel, e caía cá em baixo uma bolinha. As vermelhas era um chocolates beras, as azuis um bom chocolate, e a preta e a branca eram coisas melhores?

Deve fazer parte do imaginário de todos os que nasceram antes de 70 e dos que viviam em pequenas aldeias e vilas, nascidos até 80.

Quem também se lembra, é Pedro Rolo Duarte:

No café da Dona Luísa, o “Café do Pinto”, no Penedo, de onde saía a deslumbrante “Galinha Corada”, eu apreciava mais três coisas: os matraquilhos, dispostos cá fora, estrategicamente, sob uma videira de “uva morangueira”; o televisor a preto e branco que mantinha a comunidade concentrada na imagem (permitindo-nos a nós, miudagem, o descarado roubo de pastilhas “Pirata” de um frasco adormecido sobre o balcão); e o pequeno terreiro das traseiras, onde se jogava “chinquilho” (não sei se assim se escreve, mas era assim que os mais velhos diziam chamar-se o “jogo da malha”).
Lembro-me perfeitamente do dia em que o Sr. Abílio, marido da Dona Luísa, me exibiu (lisboeta no Penedo, à época, era mais ou menos como artista dos “Morangos” nos dias de hoje...), a novidade daquele Verão (salvo erro) de 1972: um painel cheio de círculos pintados e um lápis agarrado a uma corda. Por um escudo, ou dois, perfurávamos um círculo daquele painel. Ao fazê-lo, libertávamos uma espécie de berlinde colorido. Consoante a sua cor, assim “ganhávamos” um chocolate desta ou daquela qualidade, ou se acaso nos “calhasse” uma das bolas raras, a preta e a branca, seríamos bafejados pela sorte de uma bola de futebol ou de um canivete. Um jogo divertidíssimo para todas as crianças da aldeia, a sensação daquele ano. Foi uma animação quando chegou ao Penedo...
... Trinta e tal anos depois, leio no “Público” que o “novo alvo da ASAE” são as “máquinas de chocolates”, sucedâneos desta minha velha diversão, com o superior argumento de que o cliente tem de perceber “a que teria direito antes de introduzir as moedas”...
À escala mínima das histórias que conto, eu era mais livre naquele tempo. O mundo parecia demasiado grande para a minha escassa dimensão – mas hoje, sendo bem mais diminuto, parece ridiculamente menos livre. Não me agrada o paradoxo, justamente pelo absurdo que encerra. Hoje é o jogo da sorte/azar no chocolate, o que será amanhã?


No seu blog.
 

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publicado às 21:51

Natal em Colares

por Nuno Saraiva, em 23.12.07





O meu Natal tem uma história banal. A rima é despropositada, mas não vou alterar a frase: o meu Natal tem uma história banal. Numa família com escassas ligações à religião – ou que se calhar se escondem por detrás das aparências pragmáticas, e nunca as consigo ver -, o Natal é a ocasião e a oportunidade para compensarmos as ausências, para actualizarmos as referências e os olhares, e termos um bocadinho de tempo para estarmos uns com os outros, e todos em simultâneo.
Na casa de bonecas que era o Penedo, com o meu pai à volta da lareira e eu a enfrentar o frio de Dezembro de bicicleta em riste; na casa do Campo Grande, onde os presentes se escondiam nos armários para os embrulhos não serem “violados” por mim e pela minha irmã; depois, à vez, no Bairro de São Miguel, na Boavista, na Quinta do Lambert, de novo no Campo Grande. O tempo e as condições construíram e desconstruíram natais de todas as cores - mais sentidos, mais interiores, mais festivos. Conforme os anos, conforme os acontecimentos de cada ano. Mas sempre com o mesmo quadro inicial: voltarmos a olhar uns para os outros. Pensarmos uns nos outros e no que cada um gostaria de viver e sentir e ter. Fecharmo-nos sobre o que somos – abrindo-nos entre nós.
É assim que todos os anos “adivinho” o Natal – apesar da história banal, sei que os factos determinam o ambiente. Na nossa família – em todas, presumo -, o Natal cresce quando chega uma criança – como esmorece um bocadinho quando parte alguém. Ninguém resiste à alegria de uma criança quando ajuda a compor a árvore ou o presépio, ou quando rasga desalmadamente um embrulho. Mas não ignoramos, entre os mais velhos, a falta que nos faz quem não está. Nessa medida, o Natal acaba por constituir um momento de confronto e luta – entre o melhor que a quadra tem e a memória que não nos deixa viver tranquilamente com a falta, a ausência, o luto. É um conflito de sentimentos, felizmente sempre vencido pelas crianças, que nos obrigam a renascer todos os dias.
Não consigo, no entanto, deixar de pensar neste conjunto de banalidades sem lhe acrescentar a voz avisada de alguém que aqui há tempos, falando sobre as relações amorosas, me dizia: “cada pessoa que passa pela nossa vida deixa-nos um presente cá dentro. Está embrulhado. Quando menos se espera, desembrulha-se e revela-se. Às vezes é um trauma, outras vezes uma flor. Às vezes acrescenta-nos um ponto, outras vezes retira-nos tudo”. É uma grande verdade com a qual nem sempre contamos. As relações morrem, as pessoas desaparecem da nossa vista, e na aparência tudo fica resolvido e em paz. Mas repentinamente o tal presentinho que nos deixaram dá sinal de vida, desembrulha-se, mostra-se e marca posição. Não há impunidades nem páginas em branco quando se sente. Quando se vive. Lembro-me sempre de uma frase do meu amigo Miguel Esteves Cardoso: “mal por mal, mais vale ser bom”. Quando queremos ser bons e conseguimos, o presente que deixamos nos outros é doce e bom. Mas a vida prega-nos partidas vezes demais.
E não é preciso ser Natal para ver um mau presente dar sinal de vida. Deixando-nos sem norte, ou à procura de outro caminho. No balanço que estas épocas do ano sempre convocam, há presentes indesejados que nos servem de bandeja – e para os quais a única solução, antídoto, medicamento, é mesmo voltar ao começo desta conversa: o Natal pode ter uma história banal. Mas é nessa história, uns anos mais sofrida do que noutros, que está a paz que procuramos todo o ano. Porque voltamos a olhar uns para os outros e, nesse instante de absoluta certeza, os presentes que outros deixaram cá dentro e trazem recheio amargo não conseguem desembrulhar-se. São devolvidos à procedência. E a vida, por instantes, parece feita de novo à nossa medida. À medida da família e dos amigos, que é a massa de que se faz o pão de todos os dias.
 
(Ao sábado, reedições. Texto publicado na Lux Woman, um destes natais passados...)


Um texto de Pedro Rolo Duarte, as suas e as nossas memórias.

Aqui na aldeia (perdão, pequena vila), os tempos de menino eram outros. Frio, havia sempre muito frio. O dia 25 era para disfrutar os brinquedos novos. Na "Rua da Cruz" os meninos iam para a rua. Mostravam-se os brinquedos novos, a camisola nova, as luvas novas.

A determinada altura, a Quinta Mazzioti estava abandonada e a zona exterior desta era palco de brincadeiras. Na quinta "do Michael " jogava-se ao pião. Sim, por vezes a prenda de maior sucesso para alguns era o pião.

E claro, muitas vezes se andava da bicicleta. Sempre que alguém ganhava uma bina, todos experimentavam. Na lama, no frio e no nevoeiro.

Era o Natal.

Foto de JPDF

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publicado às 18:03

Colares - blog da semana na Janela Indiscreta

por Nuno Saraiva, em 27.05.07
Janela indiscreta é uma rubrica de rádio, da Antena1, que passa de segunda a sexta às 3.40 e às 18.20. (Também disponível em podcast no site da RTP)

De segunda a quinta, Pedro Rolo Duarte, faz um resumo dos assuntos mais debatidos na blogosfera. À Sexta escolhe o blog da semana.

Esta semana o blog escolhido foi este mesmo. Pode ouvir o programa aqui:



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publicado às 12:42

Colares e a imprensa

por Nuno Saraiva, em 06.12.06
Crónica de Pedro Rolo Duarte no DN, onde conta que teve há anos um moínho em Almoçageme


Quando ouvi pela primeira vez o anúncio - "IC19 - Será que este martírio vai ter fim?" - recuei mais de 20 anos no tempo. Voltei aos meus 21 anos e ao romantismo absolutamente tonto que me guiava à época. O romantismo levou-me então a alugar um moinho às portas de Almoçageme, uma pacata aldeia entre Colares e a praia Grande, e a ir viver para lá, na ilusão de que ser jornalista significava não ter horários e, por conseguinte, poder fazer o trajecto Sintra-Lisboa sempre "contra o trânsito". Percebi depressa que não há trânsito "a favor". Nunca. O trânsito é algo que está sempre contra nós, e a faixa ao nosso lado rola sempre mais depressa do que aquela em que circulamos.

Crónica

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publicado às 22:40


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