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Os ébrios

por Nuno Saraiva, em 07.01.17

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Se olho em volta de mim, se paro, se contemplo,

Vejo abrir um bordel dentro de cada templo,

São cheios os quartéis, repletas as igrejas.

Os ébrios histriões e as ébrias colarejas

Cantam nas espirais do fundo sorvedoiro.

Cada corpo gentil vale um punhado d'oiro.

 

 

Guerra Junqueiro, A Morte de Dom João, Lello & Irmão, Lisboa,página 31

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publicado às 22:32

Colares e a literatura brasileira

por Nuno Saraiva, em 23.04.07
Quem leu este post sabe que eu defendo a palavra colareja como sendo o gentílico de Colares.

Em suma, a abundância de fruta e legumes na zona de Colares era tanta, que qualquer mulher que exercesse essa profissão, era apelidada de colareja. E não há que esconder o passado, muitas vezes era referida de forma pejorativa; como mulher rude, inculta e barulhenta, um pouco à imagem de como por vezes usamos a palavra "peixeira"

Manuel Antônio de Almeida, um jovem médico,escritor e jornalista que escreveu um único livro -  que foi publicado episodicamente num jornal - pois morreu com 30 anos num naufrágio, usa a expressão colareja no seu romance, que retrata um romance na classe baixa.


Capítulo X
Explicações

O velho tenente‑coronel, apesar de virtuoso e bom, não deixava de ter na consciência um sofrível par de pecados, desses que se chamam da carne, e que não hão de ser levados em conta, não de hoje, que a idade o tornara inofensivo, porém do tempo da sua mocidade: o resultado de um deles fora um filho que deixara em Lisboa, fruto de um derradeiro amor que tivera aos 36 anos.

Poucos dias antes de embarcar para o Brasil em companhia del‑rei, estando o infeliz pai em preparativos de viagem, viu entrar‑lhe pela porta adentro uma mulher velha, baixa, gorda, vermelha, vestida, segundo o costume das mulheres da baixa classe do país, com uma saia de ganga azul por cima de um vestido de chita, um lenço branco dobrado triangularmente posto sobre a cabeça e preso embaixo do queixo, e uns grossos sapatões nos pés. Parecia presa de grande agitação e de raiva: seus olhos pequenos e azuis faiscavam de dentro das órbitas afundadas pela idade, suas faces estavam rubras e reluzentes, seus lábios franzinos e franzidos apertavam‑se violentamente um contra o outro como prendendo uma torrente de injúrias, e tornando mais sensível ainda seu queixo pontudo e um pouco revirado.

Apenas se achou ela em frente do capitão (era este o posto que tinha nesse tempo o velho) foi‑se chegando para ele com ar resoluto e enfurecido, O capitão recuou instintivamente um passo.

 

— Ah! Sr. capitão, disse ela por fim pondo as mãos nas cadeiras, chegando a boca muito perto do rosto dele e abanando raivosa a cabeça: olhe que isto assim não vai direito; fazer‑me andar a cabeça à roda... põe‑me os miolos a ferver... e eu estouro... já viu!...

 

— Mas o que há então, mulher?... Eu não lhe conheço...

 

— Não quero cá saber de nada... Já lhe disse que isto não vai bem... e eu estouro...

 

— Mas por quê?... o que é que tem?... É preciso que você diga...

 

— Não tenho nada que dizer... Estouro, já lhe disse, Sr. capitão!...

 

— Pois estoure com trezentos diabos! mas ao menos diga pelo que é que estoura.

 

— Não tenho nada que dizer... já lhe disse... isto põe a cabeça da gente como uma cebola podre, não tem lugar nenhum... Ir‑me por lá com ares de santarrão comprar frutas...

 

— Quem, mulher de Deus? Você não se explicará?

 

— Qual explicar, nem meio explicar! Pois então por ser cá a gente uma mulher velha, que já perdeu os achegos ao mundo, e ela uma pobre rapariga tola e bisbilhoteira, com vontade de saber de tudo, vir‑me cá a mim pregar o mono na bochecha, e a ela em lugar ainda mais melindroso...

 

— Mas quem é que pregou monos a você mais a ela? e quem é ela?...

 

— Faz‑se de novo! continuou a mulher exasperando‑se; pois o Sr. capitão já não tinha consentido no casamento?...

 

— Que casamento? com quem?

 

— Ai, ai, ai, que cá me anda a cabeça como uma nora solta... Pois o Sr. capitão não sabe que tem um filho?...

 

— Sim, sei, respondeu este começando a descobrir o mistério.

 

— E não sabe que ele é um pedaço de um mariola!... A isto o capitão podia, porém não se animou a responder afirmativamente, e perguntou somente:

 

— E que mais?...

 

— E não sabe também que eu tenho uma filha que trouxe do Lumiar, a Mariazinha?

 

— Como, se eu nem a conheço?...

 

— Pois é uma rapariga muito capaz... e o diabo do tal cadete do seu filho andou por lá a entender com ela muito tempo: namoro para cá, namoro para lá, presentes daqui, promessas dacolá... e afinal de contas... brás!... E então que lhe parece?

 

O capitão foi às nuvens.

 

— Até lhe prometeu casamento, dizendo que o Sr. Capitão consentia... Ora eu bem sei que ela também teve a sua culpa... mas eu desculpo isso, porque também já fui rapariga... e sei que quando começa cá o diabo no corpo, adeus! Mas isto põe a gente tonta, porque... enfim a rapariga podia vir a fazer fortuna.

 

O capitão tinha compreendido tudo, e por mais algumas explicações que se seguiram viu‑se reduzido ao maior aperto. Desta vez a diabrura do rapaz era irremediável. A mulher tinha toda a razão; porém casar seu filho com a filha de uma colareja... isso não poderia ser; além de que nada tinha que deixar ao filho, e só com o soldo de cadete não poderia sustentar mulher e casa, restando além disso a dúvida se ele estaria ou não pelos autos...


Manuel Antônio de Almeida, Memórias de um sargento de milícias, 1831

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publicado às 22:30


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