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A SOCIEDADE DAS CIÊNCIAS MÉDICAS DE LISBOA

por Nuno Saraiva, em 29.07.06

No ano de 1902 uma Escola de Medicina Tropical foi fundada em Lisboa, passando a existir com denominação de "Instituto de Higiene e Medicina Tropical". O impulso para a criação dessa Escola de Medicina Tropical partiu da Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, uma das mais antigas sociedades médicas do mundo fundada em 1822. Recordemos a dívida que todos temos para com Sociedade das Ciências Médicas de Lisboa, e citemos as palavras do médico Costa Sacadura, presidente desta sociedade em 1952: "deixem­-nos recordar os nomes por ventura esquecidos da Marinha e dos territórios ultramarinos que, em regiões de África, inclementes naquela época, nas mais rudes condições, em relação ao clima, higiene e acomodações, privados de todos e quaisquer meios de estudo, foram os primeiros a descobrir os segredos e as riquezas de uma exuberante flora médica oferecida pela natureza aos homens para a cura das suas doenças, algumas das quais, nós podemos realçar, eram estranhas, terríveis e ainda por estudar, devastando tanto os nativos como os colonos".

Entre aqueles médicos deveremos referir pelo menos dois nomes: Bernardino António Gomes (1768-1823) e Carlos França (1877-1926). Bernardino A. Gomes serviu na Marinha de 1797 a 1801 com o posto de comandante, e já por nós foi referido a propósito de outro grande nome da Medicina portuguesa: António Nunes Ribeiro Sanches, médico higienista (1699- 1783). Bernardino A. Gomes descobriu em 1812, um dos alcalóides da cinchona-quinina-e seu consequente uso terapêutico, antecedendo Pelletier e Caventou. A Medicina Tropical foi incorporada no currículo da Escola Naval de Lisboa, em 1887. A escola fora criada por decreto de 23 de Abril de 1845 (ministro José Falcão), e reformada em 1887, passando a partir de então os futuros oficiais de Marinha, incluindo os médicos, a frequentar essa disciplina. Nesta conjuntura, um curso foi instituído de Higiene Naval e Colonial-parte I, seguida da parte II, Patologia Exótica. Este curso de 1887 pode ser considerado como o embrião dos futuros cursos de Medicina Tropical. O Almirantado tem o mérito e a honra de ser pioneiro deste ramo da Medicina em Portugal.

Carlos França tem igual direito a ser recordado entre os pioneiros da Medicina tropical. Os seus trabalhos sobre os tripanosomas, iniciam-se em 1905 com a publicação de um artigo registando a sua observação de um caso da doença do sono. No sangue do paciente ele encontrou tripanasomas, os quais inoculou experimentalmente em ratos; alguns dias mais tarde, ele encontrou os parasitas no sangue dos ratos inoculados. Faremos também menção do seu trabalho no campo das Glossinae, consideradas como vectores da doença do sono africana. A mosca tsetse (Glossina morsitans) é também uma praga e flagelo do gado, ao qual transmite a doença nagana. "Quem quer que viaje com animais domésticos, escreveu Livingstone nas suas memórias-jamais esquecerá o particular zumbido da mosca tsétsé, uma vez que a tenha ouvido". (David Livingston, 1813­1873) explorador e missionário no continente africano).

Mais recentemente Bruce torna a referir que entrar numa zona de mosca tsetse resulta numa inquietação, intranquilidade e desespero tanto para homens como animais. Alguns historiadores consideram ser a mosca tsetse a razão do estilo de vida nómada de algumas populações nativas africanas; a constante fuga à praga, argumentam eles, é responsável pelo grande êxodo dessas populações. Carlos França também estudou em 1905 a mosca do Cazengo, Angola. Ele acreditava que fosse uma espécie por descrever de Diptera, e propôs-lhe o nome de Glossina bocagei. No mesmo ano descreveu Glossinae da África Oriental conservada no Museu Bocage de Lisboa­ Faculdade de Ciências, onde ele era naturalista, considerando-as de especial interesse em relação à etiologia da doença do sono. Ele continuou a interessar-se pela entomologia médica exótica, com séries de estudos, principiando em 1913, sobre insectos sugadores de sangue. Em todos os seus trabalhos sobre parasitologia, Carlos França preocupou-se não só com a pesquisa científica mas também com a aplicação prática das suas descobertas. Esta tendência é bem visível nos seus estudos sobre a bilharziose. A bilharziose, raramente encontrada na Europa, apareceu em Portugal em 1921. Num artigo sobre bilharziose, Carlos França situa a sua frequência, a escala e a incidência da doença, uma descrição biológica do Shistosoma, medidas preventivas tomadas no passado, e as suas próprias recomendações para a prevenção futura e tratamento. Desejando dar ao seu trabalho uma dimensão prática, incluiu duas ilustrações e escreveu um anexo para ser traduzido nas línguas nativas e distribuído às populações indígenas como um meio de propagar conhecimentos básicos na prevenção da doença. Mais tarde voltou a pronunciar-se sobre a eclosão da bilharziose em Portugal, promovendo a hipótese que a doença tinha sido importada por soldados de regresso de expedições tropicais. Outras áreas da parasitologia exploradas por Carlos França incluem a filariose, uma doença parasitária causada pela filária Wuchereria bancrofti. A filariose encontra-se por toda a parte no mundo, predominantemente em África e é inoculada no homem pelos mosquitos Anopheles culex e Stegomyia.

No ano de 1924 o conselho da Faculdade de Medicina de Lisboa votou por unanimidade a nomeação de Carlos França como professor de Parasitologia. Por ocasião do centenário da Escola Régia de Cirurgia de Lisboa (1925), Carlos França deu quatro lições de parasitologia, algumas das quais como a lição intitulada "Ciclos da evolução de certos parasitas", contendo muita matéria original. Fora porém por volta de 1896 que com Câmara Pestana, um dos maiores nomes da Medicina portuguesa, se iniciara a sua longa caminhada de cientista. Homem de muitos talentos, capaz de inspirar outros com o seu próprio entusiasmo, um homem de ciência e ensino, médico parasitologista e historiador, Carlos França foi acima de tudo um Português e um patriota. Depois de 1921, dedicou-se ao estudo das descobertas portuguesas nos campos da Medicina e Biologia, principiando com o estudo "An early Portuguese contribution to Tropical Medicine", apresentado em Londres à Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene. Os seu estudos mais importantes neste dom ínio foram contudo "Os Portugueses da Renascença, a Medicina Tropical e a parasitologia" (França) e "Os Portugueses do século XVI e a História Natural do Brasil".

Terminaremos com as suas próprias palavras:

"Deixem-nos glorificar os reconhecidos grandes homens de ciência, aqueles que vieram no tempo certo para trazer a verdade em triumfo. Mas não esqueçamos aqueles que vieram antes, os quais com o seu trabalho preparam o triumfo."

Artigo de Fanny Andrée Font Xavier da Cunha na revista Medicina na Beira Interior, disponível numa sebenta da faculdade de medicina de Coimbra.

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publicado às 16:47



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